Recordando….
LOURENÇO MARQUES
A saudade é o tempo que passou. Para «acalmar» os momentos de nostalgia sento-me e recordo com saudade a minha querida cidade de Lourenço Marques (Maputo), Moçambique!
São nove horas e trinta minutos de um anoitecer cálido de Verão. Sentado numa das cadeiras que ornamentam a varanda recuada da minha «palhota» (casa em gíria africana) olho a linha alaranjada do horizonte que se perde no mar de Matosinhos e as nuvens difusas da poluição que cai sobre os campos verdejantes da minha terra. A lassidão trouxe-me à mente longínquas imagens do passado. De um passado que recuou à juventude dos meus vinte anos…
Embalado por essas imagens, semicerrei os olhos e deixei-me sonhar e embalar numa onda de saudade que me transportou a outro lugar e a mais de quatro décadas atrás. Sei lá quanto tempo durou a minha visão… talvez minutos, talvez horas, mas tenho a certeza de que foi linda e que tudo ao meu redor me pareceu melancólico e triste quando se dissipou a minha romagem de saudade.
Comovido? Claro! Além de me considerar um incorrigível sentimentalista — creio que qualquer um outro, no meu lugar, teria sentido, também, dificuldade em controlar algumas lágrimas teimosas —, recordei com saudade tudo o que para sempre ficou para trás. E, porque não confessá-lo, talvez que nessa comoção existisse um misto de saudade e de gratidão. Sim, gratidão porque aprendi, no passado, a sentir saudade!
Através da névoa dos anos passados em Lourenço Marques, vi-me no «Continental», no «Scala», na esplanada do velho «Nicola» rodeada pelas frondosas árvores da Praça 7 de Março. Vi-me entre os colegas e as velhas «Linotypes» do jornal «Notícias de Lourenço Marques». Vi-me entre aquela simpática gente que recebia, sempre de braços abertos, os que chegavam pela primeira vez à bela cidade, construída pelos portugueses na parte oriental de África, e que as mornas águas do Índico bahavam. Vi-me entre os jovens da minha idade que, em grupos, se reuniam na esplanada da «Cristal» ou da «Princesa», mesmo junto do Liceu Salazar e da Escola Comercial, contando anedotas e «confessando» os segredos próprios da juventude. Vi-me nas fugidas que fazíamos à Cooperativa dos Criadores de Gado, para saborear as deliciosas arrufadas, as estaladiças «wafles» e o batido de chocolate gelado. Vi-me muito bem instalado a saborear os famosos «pregos» em pão do «Marialva», a bem temperada galinha à cafreal da «Imperial» e os camarões grelhados com molho de limão e manteiga do «Piri-Piri»… Havia lá melhor manjar!!!
Vi-me, tantas vezes em grupo, a deslocar-me ao Mercado Vasco da Gama para viver uma aventura de vida e de cor, com aquelas bancadas de vendedeiras brancas e negras, mulatas, indianas ou chinesas, regateando o preço e a qualidade dos seus produtos dos mais variados tipos. Sempre apinhado de turistas, vindos da África do Sul e da Rodésia, aquele mercado tornava a cidade mais cosmopolitana. Ah!… e aquelas mangas saboríssimas, as enormes abacates, as papaias rosadas, o aromático maracujá e o suculento abacaxi, o cajú assado pelas «mamanas» numa rudimentar lata com carvão incandescente e também as deliciosas e doces laranjas de casca verde. Oh!… tantos cheiros e sabores da fruta tropical que se cultivava nos campos circunvizinhos da cidade (Matola, Boane, Goba, Marracuene, Umbulúzi…)
O meu sonho «levou-me» ainda ao paradisíaco Jardim Vasco da Gama e à paz que se gozava entre a fresca e a variada vegetação onde se sentia, também, a alegria dos parzinhos de namorados que se prometiam sentados nos bancos de pedra ou de madeira espalhados sob aquelas frondosas e seculares árvores. Vi-me levado ao inesquecível «passeio dos tristes» (desde o «Zambi» até à Costa do Sol ou até ao Bairro dos Pescadores), ao pôr-do-sol passando pelo «Miramar». Aqui a paragem era obrigatória para admirar a beleza daqueles corpos morenos que se bronzeavam deitados sobre as areias finas e limpas que se perdiam numa extensão de cerca de trinta quilómetros, até à selvagem praia da Macaneta bem escondinha na foz do rio Incomáti!
Vi-me ao volante do meu «Cooper S» entre os muitos «fângios» que aceleravam, até ao máximo das rotações, na pista da Costa do Sol. Vi-me a percorrer a marginal e a gozar a beleza de uma paisagem inesquecível enquadrada por velhas palmeiras, acácias e jacarandas e por um mar calmo e meigo.
E que delírio, quando era domingo de piquenique na Catembe. A travessia da baía do Espírito Santo no belo e típico «ferry-boat» era uma saudável «farra» em que todos participavam e cantavam ao som de alguma velha viola, de um improvisado tambor ou mesmo de um roufenho acordeão que algum «turista» resolvia carregar. Ali todos se conheciam e todos confraternizavam em harmoniosa e salutar fraternidade.
Ao chegarmos ao outro lado atiravamos com a «carga» para a areia e espraiavamos o olhar com orgulho naquele inigualável postal turístico que se debruçava perante nós: a moderna e querida cidade de Lourenço Marques que os portugueses construiram desde que, em 1544, foi fundada a feitoria pelo colonizador português! E como nos orgulhavamos da «nossa» cidade ao contemplá-la do outro lado da Baía do Espírito Santo!…
O mar era belo e misterioso e quanto mais dele nos aproximávamos mais beleza nos oferecia numa costa de sonho onde figurava a serenidade da praia do Bilene, a bravura do mar na escondidinha Macaneta, a beleza agreste das praias do Xai-Xai, do Chonguene, da pacatez de João Belo, do acolhimento de Inhambane, a terra da boa gente, ou o encanto bravio da Ponta do Ouro!…
O roncar acelerado de um automóvel «acordou-me» do sonho e maldisse a hora em que esse «incómodo despertador» cruzou pela minha rua.
Saboreando o gozo das minhas memórias saí do meu transe. Limpei os olhos húmidos e tentei reconciliar-me com o presente e, num tributo quase de gratidão à terra onde vivi parte da minha juventude, resigno-me a viver cada dia dizendo baixinho:
«Obrigado, Moçambique! Que saudade sinto de ti!»
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Ainda jovem (21 anos de vida), cheguei a Lourenço Marques. Aí conheci bons amigos e escolhi as areias das praias da Polana, Miramar e Costa do Sol, para nelas «gravar» os coraçõezinhos e segredos amorosos que só eu e as ondas partilhávamos.
Hoje, quarenta anos passados, recordo as noites mornas e de luar prateado que nos levavam, até à praia da Polana onde espojavamos nas areias macias e banhadas pelas águas do Índico. Relembro o cartão de visita da cidade que nos era oferecido pela Praça do Mouzinho — tendo como pano de fundo o edifício da Câmara Municipal e a bela Catedral — sempre tão arrumadinha que parecia impor-nos um toque sacrossanto e onde não faltava a convergência de ruas abobadadas de acácias rubras, ou jacarandás de roxos floridos, nas suas épocas.
Não posso deixar de recordar e seria condenável se não o fizesse, o Isac, o Manuel, o Castigo, o Salvador, o Amaral, o Santana, o Grenho, o António, o Ulisses, o Ricardo Saavedra, o Albazini — antigo jogador do Futebol Clube do Porto —, e tantos, tantos outros amigos que se desdobravam em cuidados para que eu não sentisse nem o travo amargo da saudade, nem a distância que me separava dos meus pais que ficaram em Portugal. Nunca eles fizeram cerimónia em partilhar comigo a privacidade do seu lar e a bondade da sua família.
Relembro, ainda, que foi na cidade de Lourenço Marques que conheci a alegria de receber o «fruto» de um grande amor: o nascimento do primeiro filho, o Marco Paulo! E também o início da fecundação de uma «estrela» que viu a luz do firmamento em Pretória, África do Sul: a minha filha, Angela Maria!
Sem intenções de ser ingrato para com o meu querido Portugal (que me viu nascer e crescer) nem para com a África do Sul (país que me acolheu de braços abertos em 1974), posso dizer que não há possível comparação com tudo aquilo que me foi dado ver e que deixei naquela cidade à beira do Índico plantada. Não. Não é ingratidão: MOÇAMBIQUE NÃO ERA PIOR NEM MELHOR, ERA SIMPLESMENTE DIFERENTE, GOSTOSO E INESQUECÍVEL!…
ALVARINHO SAMPAIO, S. Pedro Fins, Agosto de 2004
P.S. – Se entende que este artigo merece o seu comentário, sinta-se livre e à vontade para o fazer. Aliás, seja qual for a sua opinião, ela servirá para eu aprender mais e mais!…