O lado obscuro do fascínio é o
abismo que a seguir se encontra
abismo que a seguir se encontra
Cidade de Pretória, República da África da Sul. Um dia, já lá vão muitos anos, pediram-me para escrever um discurso que serviria para homenagear o falecido Comendador António Braz – um Homem de grande valor e um dos poucos filantropos que conheci e que viveu parte da sua vida a auxiliar as comunidades da África do Sul e, naturalmente com mais assiduidade, a Comunidade Portuguesa de Pretória. Não fosse ele, também, Português. Um beirão de gema!!…
A pessoa que me fez tal pedido era um dos muitos bajuladores que proliferavam no seio da comunidade portuguesa servindo-se dela sem a ela servir! Era um dos representantes da Comunidade que procurava alcançar um pedestal sem nada fazer para o merecer!…
Um homem muito afamado pela sua falta de carácter e pela ausência de escrúpulos; servia-se do esforço e do trabalho dos outros para se guindar na «corda bamba» que os responsáveis pelos Serviços Consulares e pela própria Embaixada Portuguesa lhe atiravam como pagamento das bajulices!…
— Hei, Sampaio!, tens de escrever um discurso para eu ler no dia da homenagem que vamos fazer ao Comendador Braz.
Senti um calafrio subir-me pela espinha acima. A pouca educação daquele homem estava bem patente no modo como «exigia» um trabalho que lhe traria, como tantos outros por mim executados, mais uma coroa de louros!…
Já não me sentia na presença de um homem com tanta «falta de chá»; tannta desfaçatez!… Em voz baixa, sem alardes, respondi-lhe:
— Eu não escrevo nada, apesar de toda a gente saber da grande amizade que nutro pelo homenageado!… Porém, se escrevesse quaisquer palavras sobre o Comendador, você não pode dizer palavras que não sente!! Seja você a falar e diga aquilo que sabe para não cair no ridículo!; seja simples e não queira usufruir, como tem feito, do trabalho dos outros; não queira arrecadar para si, o mérito que a outros pertence.
Os seus olhos, chisparam de raiva. No seu rosto estava estampado o rancor. Senti que toda a fúria contida naquele corpo enorme e irritado ia desabar sobre mim. Fiquei em atalaia à espera do ataque final! Mas… o homem virou-me as costas e sussurou:
— Eu sei que não me tenho portado bem. Mas peço-te que escrevas algumas palavras sobre a homenagem!
O dia da homenagem chegou e o nosso homem, tal cobra que rasteja à procurando a sua vítima, andava de um lado para outro do enorme salão repletos de pessoas. Os seus olhos procuravam-me. Quando me fitaram pareciam implorar a minha anuência ao seu pedido!…
A hora da homenagem chegou. Pegou no microfone e quis falar. Não conseguiu. Porém, ainda articulou mais ou menos estas palavras:
— Estão todos contra mim!…
Atirando com o microfone para as mãos do seu vice-presidente saiu do salão a praguejar. Para minha surpresa ouvi um coro de apupos e assobios que acompanharam aquele homem «vestido com a pele de cordeiro» que enganava toda a gente.
A festa de homenagem prosseguiu e ninguém sentiu, nem comentou, a ausência daquele homem que se servia de tudo e de todos, sem olhar a meios, para atingir o fins a que se propunha.
A sua corpolência e arrogância não evitaram que o seu fascínio caísse no abismo profundo da escuridão.
Alvarinho Sampaio – 08 de Dezembro de 2008