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UM HINO À MINHA TERRA!

 

UM HINO À MINHA TERRA

 

É  linda. Muito linda, a minha terra!… Sempre  orlada de verdes pinheirais e bravia vegetação que cresce, desordenada, nas encostas do monte Gonçalão e se perde de vista nos bucólicos outeiros que circundam o vale onde crescem os milheirais que ondulam ao vento nos dias quentes de verão.

 Quem sobe ao monte mais alto da Maia – o Monte de S. Miguel-O-Anjo – observa, desse magestoso lugar, o colorido dos campos e das aldeias que se debruçam aos pés do Arcanjo S. Miguel. Dali disfruta-se de toda uma vasta paisagem que os nossos olhos não se cansam de mirar!…

 
 Como é bom viver no seio da natureza da minha terra tão fértil de maravilhas que nos extasiam o olhar e nos embriagam a alma; e como é bom sentir a embaladora serenidade das manhãs, que a minha terra oferece aos mais dorminhocos, como uma doce amenidade! E como é agradável o ar puro que ainda se respira como se fosse um bálsamo que dinama dos montes que circundam o vale verdejante que se estende a seus pés.

 Como é linda a minha terra e como eu gosto de recordar a ansiedade e a labuta dos dias estivais, nos campos ceifando o milho, nos eirados debulhando as espigas douradas e vermelhas – que davam direito a um abraço ou mesmo um carinhoso beijo a quem as encontrava –, ou debaixo das ramadas colhendo as uvas que à noite, ao serão, eram pisadas nos grandes lagares de pedra pelos pisadores que não se cansavam de cantarolar alegres cantigas.

 Como eu recordo, com saudade, a subida aos altos e frondosos pinheiros – em busca das pinhas donde debulhava, nas noites frias de inverno, os deliciosos pinhões com um pequeno travo a resina –, onde o céu parecia estar mais perto de mim e onde o horizonte se mostrava mais longe. Como é bom recordar os pachorrentos animais que cruzavam os estreitos e sinuosos caminhos que os conduzia ao monte ou ao campo; como é bom recordar o cheiro penetrante que exalava, ao pôr-de-sol, dos vasos floridos de onde se debruçavam as jardineiras e as rosas que enfeitavam as janelas e as varandas das casas brancas e soalheiras da minha aldeia e, Santo Deus, como eu gostava dos seus odores!…

 E do inverno que assolava a minha terra? Dele guardo com saudade a visão dos campos cobertos de neve que os transformava num imenso manto branco – tão branco como a alma, pura e inocente, das crianças que logo pela manhã corriam, tantas vezes pouco agasalhadas – mas sem medo das gripes ou constipação -, brincavam com a neve que havia caído, de mansinho, durante a noite!

E como é tão bom recordar as tardes de Domingo, quando via as malhas voarem pelo ar para acertar no meco que ao longe se mantinha erecto à espera de ser derrubado pelas malhas atiradas pelos jogadores que se juntavam nos caminhos de terra, junto à adegas do «Pedreiro» ou do «Machado», em Arcos, ou das tabernas do «Pinheiro», do «Monteiro», do «Adolfo» ou do «Torres». E, mais à tardinha, quando o sol começava a pôr-se no horizonte, sentavam-se para merendar e jogar as cartas – «sueca» ou «copas». Como esses passatempos eram salutares e como tudo isso me faz morrer de saudade!….

Perdoem-me, os mais idosos se, com este desabrochar de recordações, lhes fiz derramar algumas lágrimas saudosas. Porém, recordar a minha terra, tal como ela era há mais de meio século, é a coisa mais agradável e gratificante que me dá o alento para viver e continuar a amar o legado dos meus antepassados!

ALVARINHO SAMPAIO

02 de Janeiro, 2010

 

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A ESPERANÇA NA RESSURREIÇÃO

«Eles mataram-No, pregando-O numa cruz, mas Deus
ressuscitou-O ao terceiro dia.» (Actos 10, 39-40)

A ressurreição faz com que a fé cristã passe do domínio da teoria para a vida quotidiaa. Sem a ressurreição, a doutrina de Jesus Cristo não passaria de uma interessante colectânea de histórias, ou de um sistema de normas que consideraríamos impossíveis de respeitar. Mas, porque
temos fé que Jesus está vivo, Ele desafia-nos a segui-Lo, e dá-nos forças para começarmos, nós próprios, a viver segundo a Sua doutrina.
Ser cristão não significa apenas acreditar em certas coisas; é também preciso saber aceitar e, essencialmente, conhecer e amar Jesus Cristo. E, sobre este assunto, o Apóstolo Paulo escreve:
«Por isso, assim como aceitaram o Senhor Jesus Cristo, do mesmo modo
deverão viver unidos a Ele, bem arreigados e baseando Nele firmemente a vossa fé, como lhes ensinaram…»

(Col. 2, 6-7).

UM TESTEMUNHO DE FÉ

Godfrey Williams, professor de Sociologia na Universidade de Aston, em Birmingham, Inglaterra, atingido pela doença de Hodgkins, da qual morreu, fala-nos de como é importante acreditar na ressurreição de Jesus quando a morte nos espera.
«O motivo porque me vejo forçado a pensar na morte, com a jovem idade de 30 anos, é porque os médicos pensam que não terei mais do que alguns seis meses de vida.
Ora, a maioria das pessoas não pensam na morte senão despois dos sessenta ou setenta anos, ou nem sequer chegam a pensar nela, porque morrem subitamente. Mas eu tive tempo para meditar e, em certa medida, para me preparar, para ela e parece-me que isso é um privilégio…
Damo-nos conta de que não estamos preparados para nos encontrarmos com o Criador, e de que gostaríamos de rectificar certas coisas nas nossas vidas. Alegro-me por ter tido esse privilégio.
A ressurreição de Jesus Cristo é absolutamente essencial para a esperança cristã numa vida depois desta. Em primeiro lugar, a ressurreição é o fundamento da nossa fé. Se Cristo não ressuscitou, então, como disse Paulo, somos os mais desgraçados dos homens, porque não temos a certeza de que Deus nos ama.
Nada nos garante que aquilo que Jesus disse quando estava na terra deva ser tratado com mais respeito do que as palavras de qualquer outra pessoa que se lembre de dizer qualquer coisa. A ressurreição é decisiva também porque nos mostra que existe algo depois desta vida.
É como se Jesus tivesse dito: «Olha, Eu ressuscitei da morte e tu também ressuscitarás».
Isso dá-nos a esperança de um futuro depois da morte. Ressuscitaremos com um tipo de estrutura semelhante à nossa identidade actual e seremos capazes de nos reunir a Deus e de gozar com Ele para sempre.»
«A verdade é que Cristo ressuscitou dos mortos, e é garantia de ressurreição para os que morreram.»
(1 Cor. 15. 20)

Assim, e porque estamos certos de que Jesus ressuscitou dos mortos, também podemos ter a certeza de que Ele nos dará vida depois da nossa própria morte.

A. Sampaio

É NATAL

O NATAL

É DE TODOS

É Natal. É tempo de montar o presépio e «cumprir» antigas tradições. É tempo de luzes multicores a iluminar casas e jardins. É tempo de enfeitar os pinheirinhos. É tempo de rabanadas, aletria, bolo-rei e de outras guloseimas que só nesta época têm outro sabor e sabem muito melhor!… É tempo de reflectirmos. É tempo de falarmos de paz e de amor!… É tempo de dar!… Mas.. dar com amor!…
Porém, é incompreensível que só nesta quadra o desejo de paz nos apoquente como uma obsessão que termina, temporariamente, com todas as «circunstâncias absurdas» que durante um ano dominaram as nossas vidas.
Mas… tudo é compreensível!… Até mesmo aqueles capazes de examinar friamente, e numa dimensão mais ou menos geral, os ingentes conflitos que diariamente se repetem, não hão-de sorrir às conclusões e à «verdade contemplada» que a vida, dia-a-dia nos proporciona.
Porém, tais inquietações e pessimismos não podem ser definitivos, se pensarmos que, já antigamente, em certo período da história, o povo os teve, e bem demolidores!
Contudo, para vencermos tais inquietações, temos de pôr em prática uma tarefa dura: a Arte da Vontade! E quadra propícia para pensar nela, é a quadra de Natal! Essa Vontade, aclamada neste Natal – apesar dos augúrios anunciados –, há-de levar-nos, com certeza, a pensar que ainda há motivos para esperança e com o auxílio dessa Arte da Vontade, poderemos considerar que a história não tem caminhos determinados mas sim atalhos desconhecidos ao longo dos quais, se pode destruir as maiores vontades e os melhores propósitos mas pode também, pelo contrário, dar-lhes um lugar activo no fluir da esperança de mudança.
Será ainda essa Vontade (a tal recusa de fugir perante a vida) a fazer-nos cientes de que temos uma liberdade, a qual é incompatível com a noção comum de destino, ou sorte. Mas a sorte é pouco mais que uma palavra que governa uma ínfima parte do que nos acontece; a outra parte – a tal Vontade de vencer e de derrubar tudo aquilo que nos apoquenta – é nossa, desde que, ordenadamente, saibamos participar na vida e
construir as nossas defesas contra o imprevisível! «Os homens farão bem em não desistir nunca!» – disse alguém.
A nossa Paz, assim conquistada pelo despertar da vontade de vencer e dum querer que afinal nos é intrínseco mas que a dureza dos acontecimentos obliterou, será um bom pensamento para este Natal, de tão profundas tradições, e em que há-de ser vivo o mesmo calor fraternal de antigamente!
É Natal! É tempo de Paz; tempo propício para alcançar a verdadeira Paz; a Paz que todos procuram mas tão poucos a alcançarão se não soubermos aclamar a tal Arte da Vontade!
Que o próximo ano seja o Natal que esteja presente, todos os dias, no pensamento e no coração de todos nós!

FELIZ NATAL e PRÓSPERO ANO NOVO

Alvarinho Sampaio, 08 de Dezembro de 2008

Derrocada de um fascínio

O lado obscuro do fascínio é o
abismo que a seguir se encontra

Cidade de Pretória, República da África da Sul. Um dia, já lá vão muitos anos, pediram-me para escrever um discurso que serviria para homenagear o falecido Comendador António Braz – um Homem de grande valor e um dos poucos filantropos que conheci e que viveu parte da sua vida a auxiliar as comunidades da África do Sul e, naturalmente com mais assiduidade, a Comunidade Portuguesa de Pretória. Não fosse ele, também, Português. Um beirão de gema!!…
A pessoa que me fez tal pedido era um dos muitos bajuladores que proliferavam no seio da comunidade portuguesa servindo-se dela sem a ela servir! Era um dos representantes da Comunidade que procurava alcançar um pedestal sem nada fazer para o merecer!…
Um homem muito afamado pela sua falta de carácter e pela ausência de escrúpulos; servia-se do esforço e do trabalho dos outros para se guindar na «corda bamba» que os responsáveis pelos Serviços Consulares e pela própria Embaixada Portuguesa lhe atiravam como pagamento das bajulices!…
— Hei, Sampaio!, tens de escrever um discurso para eu ler no dia da homenagem que vamos fazer ao Comendador Braz.
Senti um calafrio subir-me pela espinha acima. A pouca educação daquele homem estava bem patente no modo como «exigia» um trabalho que lhe traria, como tantos outros por mim executados, mais uma coroa de louros!…
Já não me sentia na presença de um homem com tanta «falta de chá»; tannta desfaçatez!… Em voz baixa, sem alardes, respondi-lhe:
— Eu não escrevo nada, apesar de toda a gente saber da grande amizade que nutro pelo homenageado!… Porém, se escrevesse quaisquer palavras sobre o Comendador, você não pode dizer palavras que não sente!! Seja você a falar e diga aquilo que sabe para não cair no ridículo!; seja simples e não queira usufruir, como tem feito, do trabalho dos outros; não queira arrecadar para si, o mérito que a outros pertence.
Os seus olhos, chisparam de raiva. No seu rosto estava estampado o rancor. Senti que toda a fúria contida naquele corpo enorme e irritado ia desabar sobre mim. Fiquei em atalaia à espera do ataque final! Mas… o homem virou-me as costas e sussurou:
— Eu sei que não me tenho portado bem. Mas peço-te que escrevas algumas palavras sobre a homenagem!
O dia da homenagem chegou e o nosso homem, tal cobra que rasteja à procurando a sua vítima, andava de um lado para outro do enorme salão repletos de pessoas. Os seus olhos procuravam-me. Quando me fitaram pareciam implorar a minha anuência ao seu pedido!…
A hora da homenagem chegou. Pegou no microfone e quis falar. Não conseguiu. Porém, ainda articulou mais ou menos estas palavras:
— Estão todos contra mim!…
Atirando com o microfone para as mãos do seu vice-presidente saiu do salão a praguejar. Para minha surpresa ouvi um coro de apupos e assobios que acompanharam aquele homem «vestido com a pele de cordeiro» que enganava toda a gente.
A festa de homenagem prosseguiu e ninguém sentiu, nem comentou, a ausência daquele homem que se servia de tudo e de todos, sem olhar a meios, para atingir o fins a que se propunha.
A sua corpolência e arrogância não evitaram que o seu fascínio caísse no abismo profundo da escuridão.

Alvarinho Sampaio – 08 de Dezembro de 2008

Recordando….

LOURENÇO MARQUES

A saudade é o tempo que passou. Para «acalmar» os momentos de nostalgia sento-me e recordo com saudade a minha querida cidade de Lourenço Marques (Maputo), Moçambique!

São nove horas e trinta minutos de um anoitecer cálido de Verão. Sentado numa das cadeiras que ornamentam a varanda recuada da minha «palhota» (casa em gíria africana) olho a linha alaranjada do horizonte que se perde no mar de Matosinhos e as nuvens difusas da poluição que cai sobre os campos verdejantes da minha terra. A lassidão trouxe-me à mente longínquas imagens do passado. De um passado que recuou à juventude dos meus vinte anos…
Embalado por essas imagens, semicerrei os olhos e deixei-me sonhar e embalar numa onda de saudade que me transportou a outro lugar e a mais de quatro décadas atrás. Sei lá quanto tempo durou a minha visão… talvez minutos, talvez horas, mas tenho a certeza de que foi linda e que tudo ao meu redor me pareceu melancólico e triste quando se dissipou a minha romagem de saudade.
Comovido? Claro! Além de me considerar um incorrigível sentimentalista — creio que qualquer um outro, no meu lugar, teria sentido, também, dificuldade em controlar algumas lágrimas teimosas —, recordei com saudade tudo o que para sempre ficou para trás. E, porque não confessá-lo, talvez que nessa comoção existisse um misto de saudade e de gratidão. Sim, gratidão porque aprendi, no passado, a sentir saudade!
Através da névoa dos anos passados em Lourenço Marques, vi-me no «Continental», no «Scala», na esplanada do velho «Nicola» rodeada pelas frondosas árvores da Praça 7 de Março. Vi-me entre os colegas e as velhas «Linotypes» do jornal «Notícias de Lourenço Marques». Vi-me entre aquela simpática gente que recebia, sempre de braços abertos, os que chegavam pela primeira vez à bela cidade, construída pelos portugueses na parte oriental de África, e que as mornas águas do Índico bahavam. Vi-me entre os jovens da minha idade que, em grupos, se reuniam na esplanada da «Cristal» ou da «Princesa», mesmo junto do Liceu Salazar e da Escola Comercial, contando anedotas e «confessando» os segredos próprios da juventude. Vi-me nas fugidas que fazíamos à Cooperativa dos Criadores de Gado, para saborear as deliciosas arrufadas, as estaladiças «wafles» e o batido de chocolate gelado. Vi-me muito bem instalado a saborear os famosos «pregos» em pão do «Marialva», a bem temperada galinha à cafreal da «Imperial» e os camarões grelhados com molho de limão e manteiga do «Piri-Piri»… Havia lá melhor manjar!!!
Vi-me, tantas vezes em grupo, a deslocar-me ao Mercado Vasco da Gama para viver uma aventura de vida e de cor, com aquelas bancadas de vendedeiras brancas e negras, mulatas, indianas ou chinesas, regateando o preço e a qualidade dos seus produtos dos mais variados tipos. Sempre apinhado de turistas, vindos da África do Sul e da Rodésia, aquele mercado tornava a cidade mais cosmopolitana. Ah!… e aquelas mangas saboríssimas, as enormes abacates, as papaias rosadas, o aromático maracujá e o suculento abacaxi, o cajú assado pelas «mamanas» numa rudimentar lata com carvão incandescente e também as deliciosas e doces laranjas de casca verde. Oh!… tantos cheiros e sabores da fruta tropical que se cultivava nos campos circunvizinhos da cidade (Matola, Boane, Goba, Marracuene, Umbulúzi…)
O meu sonho «levou-me» ainda ao paradisíaco Jardim Vasco da Gama e à paz que se gozava entre a fresca e a variada vegetação onde se sentia, também, a alegria dos parzinhos de namorados que se prometiam sentados nos bancos de pedra ou de madeira espalhados sob aquelas frondosas e seculares árvores. Vi-me levado ao inesquecível «passeio dos tristes» (desde o «Zambi» até à Costa do Sol ou até ao Bairro dos Pescadores), ao pôr-do-sol passando pelo «Miramar». Aqui a paragem era obrigatória para admirar a beleza daqueles corpos morenos que se bronzeavam deitados sobre as areias finas e limpas que se perdiam numa extensão de cerca de trinta quilómetros, até à selvagem praia da Macaneta bem escondinha na foz do rio Incomáti!
Vi-me ao volante do meu «Cooper S» entre os muitos «fângios» que aceleravam, até ao máximo das rotações, na pista da Costa do Sol. Vi-me a percorrer a marginal e a gozar a beleza de uma paisagem inesquecível enquadrada por velhas palmeiras, acácias e jacarandas e por um mar calmo e meigo.
E que delírio, quando era domingo de piquenique na Catembe. A travessia da baía do Espírito Santo no belo e típico «ferry-boat» era uma saudável «farra» em que todos participavam e cantavam ao som de alguma velha viola, de um improvisado tambor ou mesmo de um roufenho acordeão que algum «turista» resolvia carregar. Ali todos se conheciam e todos confraternizavam em harmoniosa e salutar fraternidade.
Ao chegarmos ao outro lado atiravamos com a «carga» para a areia e espraiavamos o olhar com orgulho naquele inigualável postal turístico que se debruçava perante nós: a moderna e querida cidade de Lourenço Marques que os portugueses construiram desde que, em 1544, foi fundada a feitoria pelo colonizador português! E como nos orgulhavamos da «nossa» cidade ao contemplá-la do outro lado da Baía do Espírito Santo!…
O mar era belo e misterioso e quanto mais dele nos aproximávamos mais beleza nos oferecia numa costa de sonho onde figurava a serenidade da praia do Bilene, a bravura do mar na escondidinha Macaneta, a beleza agreste das praias do Xai-Xai, do Chonguene, da pacatez de João Belo, do acolhimento de Inhambane, a terra da boa gente, ou o encanto bravio da Ponta do Ouro!…

O roncar acelerado de um automóvel «acordou-me» do sonho e maldisse a hora em que esse «incómodo despertador» cruzou pela minha rua.
Saboreando o gozo das minhas memórias saí do meu transe. Limpei os olhos húmidos e tentei reconciliar-me com o presente e, num tributo quase de gratidão à terra onde vivi parte da minha juventude, resigno-me a viver cada dia dizendo baixinho:
«Obrigado, Moçambique! Que saudade sinto de ti!»

*
* *

Ainda jovem (21 anos de vida), cheguei a Lourenço Marques. Aí conheci bons amigos e escolhi as areias das praias da Polana, Miramar e Costa do Sol, para nelas «gravar» os coraçõezinhos e segredos amorosos que só eu e as ondas partilhávamos.
Hoje, quarenta anos passados, recordo as noites mornas e de luar prateado que nos levavam, até à praia da Polana onde espojavamos nas areias macias e banhadas pelas águas do Índico. Relembro o cartão de visita da cidade que nos era oferecido pela Praça do Mouzinho — tendo como pano de fundo o edifício da Câmara Municipal e a bela Catedral — sempre tão arrumadinha que parecia impor-nos um toque sacrossanto e onde não faltava a convergência de ruas abobadadas de acácias rubras, ou jacarandás de roxos floridos, nas suas épocas.
Não posso deixar de recordar e seria condenável se não o fizesse, o Isac, o Manuel, o Castigo, o Salvador, o Amaral, o Santana, o Grenho, o António, o Ulisses, o Ricardo Saavedra, o Albazini — antigo jogador do Futebol Clube do Porto —, e tantos, tantos outros amigos que se desdobravam em cuidados para que eu não sentisse nem o travo amargo da saudade, nem a distância que me separava dos meus pais que ficaram em Portugal. Nunca eles fizeram cerimónia em partilhar comigo a privacidade do seu lar e a bondade da sua família.
Relembro, ainda, que foi na cidade de Lourenço Marques que conheci a alegria de receber o «fruto» de um grande amor: o nascimento do primeiro filho, o Marco Paulo! E também o início da fecundação de uma «estrela» que viu a luz do firmamento em Pretória, África do Sul: a minha filha, Angela Maria!

Sem intenções de ser ingrato para com o meu querido Portugal (que me viu nascer e crescer) nem para com a África do Sul (país que me acolheu de braços abertos em 1974), posso dizer que não há possível comparação com tudo aquilo que me foi dado ver e que deixei naquela cidade à beira do Índico plantada. Não. Não é ingratidão: MOÇAMBIQUE NÃO ERA PIOR NEM MELHOR, ERA SIMPLESMENTE DIFERENTE, GOSTOSO E INESQUECÍVEL!…

ALVARINHO SAMPAIO, S. Pedro Fins, Agosto de 2004

P.S. – Se entende que este artigo merece o seu comentário, sinta-se livre e à vontade para o fazer. Aliás, seja qual for a sua opinião, ela servirá para eu aprender mais e mais!…

Recordando…

AINDA O «EUROPEU DE FUTEBOL»

Futebol é a bola que rodopia e rola de pé em pé ou do pé para a mão – mas sem que o homem do apito veja ou… faça «vista grossa» por conveniência, claro!… Porém, logo que se detecta essa «falta de visão» do árbitro, ouve-se o «Zé Pagode» dizer que no futebol existem os «tais» compromissos assumidos e silenciosos que servem de troca a muitos outros favorzinhos de circunstância!….
Em 2004 aconteceu, pela primeira vez em Portugal, o Campeonato Europeu de Futebol. Foi euforia desmedida aquela a que assistimos. Gastaram-se milhões e mais milhões de Euros – fora as derrapagens, claro… – na construção de estádios, acessos aos mesmos e não só!… Gastou-se aquilo que tínhamos e muito daquilo que não possuíamos. Por causa do futebol – o tal «ópio do povo» –, adiou-se, com certeza, a solução dos problemas relacionados com a Justiça, a Segurança, a Saúde, o Ensino e, lamentavelmente, descuramos o verdadeiro apoio, humano e desinteressado, aos idosos que vivem neste maravilhoso país à beira-mar plantado!
Deixamos para trás projectos de vital importância para o desenvovimento sócio-cultural do país e continuamos a pagar o maldito «défice» que é amortizado, a passo de caracol e à custa de enormes sacrifícios! Mas… será que toda a gente do futebol é chamada a «contribuir» para o equilíbrio do famigerado «défice»?
Em 2004, os «conselheiros» e uns tantos «nacionalistas» imploraram aos portugueses para «içar» a Bandeira de Portugal nas janelas, varandas ou chaminés!… Deveria, enfim, ser içada em todo o lado onde fosse visível o tremular da bandeira verde e rubra.
«É lindo! É uma verdadeira demonstração de nacionalismo!…» – diziam então alguns dos nossos governantes, sem manifestar o seu desagrado pelo grande vexame a que estava a ser exposta a respeitável identidade dos portugueses!
Mas… foi muito lindo! Foi, de facto, muito bonito o desfraldar do «nacionalismo bacoco» com sotaque brasileiro!…
Porém, e apesar da sua passividade, o povo sabe que a intenção que movia e continua a mover o interesse dos tais «nacionalistas», que dizem «ensinar»(?) duas dúzias de «craques» a dar pontapés na bola, não é o «patriotismo» mas sim, o oportunismo que sabem encontrar no chauvinismo que o futebol abraça e que lhes «rende» num dia, aquilo que a maioria dos portugueses não arrecada num ano de árduo trabalho!…
Ao tempo, muitos milhões de bandeiras foram desfraldadas ao vento. Umas bem feitas. Outras, sem qualquer qualidade, apresentaram-se com os castelos transformados em «cómicos pagodes chineses». Mas… com castelos portugueses ou com os pagodes chineses todas foram içadas ou amarradas num qualquer lugar sem qualquer dignidade e à vontade de cada um!…
Oh! se pudessemos e soubessemos içar, também, a «bandeira da fome» ou a da «crise social» que alastra assustadoramente em Portugal!… E como seria bom se o fizessemos e conseguíssemos, com isso, alertar os nossos governantes para os problemas da fome e da miséria que proliferam entre muitos milhões de portugueses de todos escalões etários!
Depois de terminada a operação «Euro 2004» – e com o afastamento da equipa das quinas do «Euro 2008» –, continuamos a ver, por este país fora, as bandeiras sujas, esfarrapadas e sem cor, tremulando ao vento nos telhados, nas janelas, nas varandas, nas árvores!… São esses panos sujos e esfarrapados que, para além de dar dos portugueses a imagem de atrasados, se transformam nos Pedaços do meu País que aqui eu canto:

Que país é este, meu Deus?…
Onde as bandeirinhas sujas, esfarrapadas,
Continuam tremulando nos telhados,
Nas varandas e nas janelas, penduradas,
Dando a imagem dum país de atrasados!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde gente inculta e sem maneiras,
Não respeita os símbolos portugueses
E troca os castelos das Bandeiras
Pelos «alegres» pagodes chineses!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde a cultura, árida e decadente,
Continua deprimida pelo país inteiro,
Onde se «insulta» a bandeira num repente,
Seguindo o conselho do brasileiro!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde os «nossos» querem ganhar a todos
Num jogo de bola, de finta perneta;
Onde não se chuta, mas à vaidade a rodos,
Dando «alegrias» aos chauvinistas de treta!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde continuam a tremular os farrapinhos
E se alimenta o futebol com milhões
Deixando morrer à fome os pobrezinhos
Que vivem com reformas de tostões!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde já não se ouve a Tua trombeta
E os políticos, ávidos de enriquecimento,
Deixam cair Portugal na sarjeta
E empurram o povo para o sofrimento!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde se fecham as maternidades,
Retira-se qualidade aos Centros de Saúde,
E deixam-se nascer crianças nas ambulâncias
Estacionadas à beira dum talude!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde as manifestações de professores
Reprovam um governo sem tino
Que quer destruir os bons valores
Impondo nas escolas um mau ensino!…

Que país é este, meu Deus?…
Onde os números não escondem
O descalabro da miséria nacional,
E onde os políticos desmentem
O aumento da crise social!…

Mas… é esta a Pátria que amamos!…
E onde as bandeiras do político fedelho
Disfarçam a crise do «Zé» nacional
Cobrindo de tons verde e vermelho
A miséria que reina em Portugal!…

Alvarinho Sampaio, Julho de 2008

Opinião

OS DIREITOS E OS DEVERES

DE CADA UM

Nunca é demais expor a filosofia subjacente à Declaração dos Direitos do Homem e também aos Deveres de cada um. No nosso país, onde só se «pensa» liberdade e segurança e onde todos os homens «nascem» livres e iguais, ainda existem aqueles que vivem presos à esperança de um dia serem tratados com dignidade e sentirem-se bafejados pelo calor fraterno e solidário. Entre esses «presos» contam-se os deficientes e os idosos desamparados e excluídos por uma sociedade cada vez mais avarenta, mais egoísta e tantas vezes «exploradora» da simplicidade e humildade dos justos!
Neste maravilhoso país, à beira-mar plantado e onde todos os «homens nascem livres», continuamos a assistir à propagação incontrolável do egoísmo e da falta de respeito humano; continuamos a assistir, passivamente, a uma crescente onda de crimes da mais variada índole; continuamos a assistir, de forma até comprometedora, à decadência familiar e ao subsequente abandono de inocentes crianças; continuamos a assistir a um elevado número de mortes nas nossas estradas devido à falta de civismo de uns e à imperdoável incompetência de outros; continuamos, enfim, a assistir, de olhos vendados, ao desmoronar dos bons princípios que nos foram legados e que era uma das virtudes do nosso povo até um certo período da nossa História..
Nestas circunstâncias encontramo-nos perante um gravíssimo atropelo aos direitos do homem sob o beneplácito dos políticos que parece «fecharem os olhos» numa atitude incompreendida e de verdadeira anuência.
E porque cada um tem o direito de viver livre e de escolher livremente os seus amigos; porque cada um tem o direito de possuir coisas e ninguém tem o direito de tirá-las ou mesmo invejá-las; porque cada um tem deveres a cumprir para com as outras pessoas; e porque cada um tem o direito e o dever de deixar viver em paz, torna-se necessário lutar pela criação de uma sociedade mais fraterna, mais pacífica, mais solidária. Por isso, é imperativo exigir das autoridades o reforço de sistemas que garantam a vivência de todos em verdadeira liberdade, fraternidade e solidariedade.
Por tudo isso e para que o nosso povo reconquiste os bons princípios morais que já se tiveram mas que se perderam com a liberdade alcançada desenfreadamente e para que as próximas gerações tenham uma formação moral mais cívica e mais respeitadora, torna-se também imperativo exigir dos responsáveis políticos uma reflexão mais atenta sobre os problemas do país e a consciência de que o seu trabalho é dar prioridade àquilo para que foram eleitos: defender e zelar pelos interesses daqueles que os elegeram.
E daqui, desta pequena parcela de uma terra «onde ainda vale a pena viver», lanço um grito de alerta (comparável ao grito do Ipiranga) para que os senhores políticos façam introduzir no currículo escolar básico duas disciplinas fundamentais: Direitos e Deveres do Homem e Educação Rodoviária para que o amanhã seja de todos e igual para todos!…

Alvarinho Sampaio, Março, 2005